Chicago | Los Angeles | Miami | New York | San Francisco | Santa Fe
Amsterdam | Berlin | Brussels | London | Paris | São Paulo | Toronto | China | India | Worldwide
 
Worldwide

Mul.ti.plo Espaço Arte

Exhibition Detail
desenhos
Rua Dias Ferreira 417/206
Leblon
22431-050 Rio de Janeiro
Brazil


March 18th - April 19th
 
, Sandra Antunes RamosSandra Antunes Ramos
© Courtesy of the artist & Mul.ti.plo Espaço Arte
> QUICK FACTS
WEBSITE:  
http://www.multiploespacoarte.com.br
COUNTRY:  
Brazil
EMAIL:  
multiplo@multiploespacoarte.com.br
PHONE:  
55 21 2259 1952
OPEN HOURS:  
Mon-Fri 10-6; Sat 10-2
TAGS:  
drawing
> DESCRIPTION

1

O branco circunda as formas em todos os desenhos de Sandra Antunes Ramos. Essa é uma de suas três principais regras. Há um branco do papel, uma pele do papel, que fica intocada. E que recebe as formas e as cores preenchidas a lápis, sem que seu formato e suas dimensões sejam mudados. Do início ao final, o papel permanece autônomo, lugar de tudo, embora receba o restante com tanta sutileza e gentileza que se pode falar aqui de uma verdadeira hospitalidade.

Não é tanto a cor branca, mas o papel, o ponto a salientar. Isso fica claro pelas bordas dos desenhos. Se nessas o branco não vier a circundar as formas, é porque bastam os limites do papel. A regra de circundar de branco cada forma só vale para o interior. O fora do desenho não é circundado, mas assemelhado a um recorte. Os limites das formas são os brancos. O limite do papel e do desenho é o mundo.

A segunda e a terceira regras dizem respeito às cores: a) cada forma tem uma cor uniforme, e b) num desenho, uma forma que se repita nunca terá a mesma cor, por mais semelhantes que tais cores sejam. Por exemplo, se formas iguais surgem, elas necessariamente ocupam posições diversas e suas cores nunca são iguais. Ao lugar diferente corresponde uma cor diferente. A cor marca o lugar. E nenhum lugar é igual ao outro, pois assim se retiraria do papel, de sua área, das coordenadas concretas que possui. Entre esquerda e direita, acima e abaixo, cada ponto do papel é único.

Há uma concretude forte aqui, motivo pelo qual os desenhos são tão singulares. Tudo é único, o que vale também para o conjunto das formas que estruturou cada desenho. Se também a fatura a lápis for acrescentada, a concretude e a singularidade dos desenhos atingem um máximo.

2

Assim como as três regras tornam os desenhos muito individuados, sua aplicação concreta e contingente vai no mesmo sentido. Por mais que o ato de contornar de branco as formas ou de atribuir a cada forma uma cor homogênea configure regras mais abstratas, a fatura faz tremular uma luz específica e a cor ganha uma luminosidade que a torna um tanto outra, e concreta de novo. As regras não são quebradas, mas são reinventadas a cada forma e a cada conjunto delas num desenho.

São regras simples, mas não originam padrões assemelhados quando seguidas. Se um desenho vier a se parecer com outro, a decisão por um esquema não vem de regras prévias de concatenação das partes. Vem da elaboração do semelhante num outro desenho que também será singular e individuado.

Não há mesmo como escapar disso. Diante do branco que acolhe uma forma, a linha branca que a contorna nunca tem a mesma espessura, assim como nunca são regulares as áreas brancas. Cedem à mão a imprecisão que só a sabedoria da mão conhece.

E do mesmo modo como as medidas das linhas ou das áreas não são obtidas com o rigor da régua e do compasso, assim também acontece com horizontais e verticais, que em boa parte não são de todo ortogonais. Entram em cena, aqui, pequenas diferenças de orientação das formas. Ou de tamanhos de formas que seriam iguais.

Embora o uso de diagonais nítidas não seja predominante, as diferentes orientações delas não são muitas vezes paralelas quando parece que deveriam ser, ou não compõem uma trama forte, uma treliça, por exemplo, o que retiraria o caráter muito mais disposicional do que serial dos desenhos. Por onde se atenta, mais singulares se toram as formas e suas disposições no papel.

Seguem algumas regras, como visto, mas, graças a elas, são disposições livres que surgem. São regras que auxiliam a variedade, não a constância. Não é para manter uma regularidade que a paleta não muda muito a cada desenho ou varia em torno de poucas cores.  É que o individuar não é algo só das cores.

O contraste cromático nunca compete com o contraste entre as formas. E o contraste de claro e escuro também segue o das formas. Na maioria dos desenhos, a junção do papel, das formas e das cores gera disposições insuspeitadas ─ apesar de consonantes ─ que remetem, salvo engano, à experiência da artista como diagramadora.

3

Se os desenhos são extremamente individuados pela maneira com que são executados, sua variedade, diante de regras pouco impositivas de consecução, só encontra explicação na inteligência visual da artista, cultivada tanto pelo convívio com a arte quanto por outras experiências visuais. Os trabalhos que se propôs a expor parecem, nesse sentido, ter na experiência gráfica de Sandra Antunes Ramos um apoio. São de tal forma diversificados que se assemelham às possibilidades de diagramação de um catálogo ou livro, em especial, à capa de uma publicação. Mas há outras fontes a buscar.

Os desenhos com modelo vivo que a artista vem praticando são exercícios fecundos. Se agora nos mostra uma série com figuras geométricas simples, é com facilidade que lida com o desenho não geométrico do corpo humano. É mesmo ele que possibilita, creio, tomar notas visuais do que lhe chama a atenção como potencial motivo para um traçado geométrico posterior.

Tentador é ver nessas notas a origem da riqueza das figuras. Uma das anotações, por exemplo, teve como ponto de partida a Robie House,de Frank Lloyd Wright. Para quem se lembra da casa, não será difícil encontrá-la entre os demais trabalhos da exposição. Mas, para quem não se lembra, dá no mesmo, pois a inventividade da interpretação visual do motivo não é menor com a ausência do original.

Desenhos com modelo, diagramação de publicações, notas visuais tomadas em viagem ou passeio certamente ajudam a compreender a variedade dos traçados. Mas não explicam por que se decidiu pela variedade deles e não por um só esquema ou, numa linhagem que vem desde o Minimalismo, não se dedicou às pequenas variações geométricas e de cor de uma mesma série.

4

O que importa não é a série, mas a sutil capacidade de conceber disposições visuais muito distintas, de realizá-las no papel (e com o papel) e individualizá-las ao máximo. Não só não há uma série identificável nesses desenhos, como o conjunto deles possui diagramas que são como que o negativo de outros ─ desde aqueles onde o branco do papel surge como linha até aqueles onde algumas linhas e faixas são os lugares da cor e deixam uma grande área do papel em branco.

Se há uma constante nesses desenhos, ela está na autonomia primeira do papel, em seu uso na individuação de formas também muito individuadas, de tal modo que o esforço de reuni-las faz com que pareçam pular fora da superfície. A soma das partes, paradoxalmente, é maior que o todo. E não se trata de um todo orgânico, de algo vivo que precederia as partes. Nem de um todo matemático onde as partes somam igual ao todo. São estranhas totalidades.

Por que esses pequenos retângulos a mais? Por que essa linha aqui e não ali? Por que esse toco de diagonal? As perguntas não cessam enquanto olho os desenhos. Esse algo a mais, ou mais de um algo a mais que me inquieta e de nada serve; que só ao olhar pergunta e, sem resposta, cala; que me vem como excesso e vem de graça ─ isso, afinal, é o que aqui me cativa.

5

Como isso acontece? É difícil saber. Uma tentativa de compreensão é indagar por que as formas surgem nessa fecundidade de serem sempre mais. Por serem individuadas, singulares, mais que de hábito? E se a resposta for positiva, a individuação vem em grande parte do branco (linha, faixa ou área) que circunda as formas. No entanto, dado que o papel inteiro também é autônomo e individuado, ele, por assim dizer, é que se duplica.

Como contorno (linha, faixa ou forma), o papel é parte importante na individuação das formas. Quanto mais próximo das formas de um arranjo, mais com elas quase coincide. Entretanto, sua outra função, a que responde pela autonomia e inteireza do desenho, opõe-se à função de contornar.

Olho o branco próximo das formas e tenho duas alternativas. Olhá-lo como branco que é só do papel ou olhá-lo como branco que contorna as formas e nelas, no fim das contas, some, não havendo então mais branco. A forma salta autônoma do esquema e o branco se recolhe. Aqui, diferentemente da localização das formas e de suas cores no papel, as autonomias de ambos não se juntam, mas se repelem.

Isso vale para quase qualquer forma nos desenhos. O excesso e a fecundidade estão em toda forma olhada. São raras as que não sobressaem do papel. Do mesmo modo com que saltam, a ele retornam se a atenção se dirige mais ao desenho inteiro. Trata-se de um jogo ─ é certo  ─ de figura e fundo, porém exponenciado.

6

Nos desenhos de Sandra Antunes Ramos, quase toda forma se presta a ser figura quando olhada, ficando tudo o mais como fundo. Saltam todas se as olho uma depois da outra. O olhar é rápido, mais do que se imagina. E assim a pulsação é incessante. Mas não lembram desenhos para colorir? Certamente. Ou peças de um quebra-cabeças antes do encaixe? Também.

Só que as figuras não existem de antemão. E o branco não adquire uma dupla função quando colorimos formas. Se de fato são quebra-cabeças, é preciso compreendê-los como puzzles de si mesmos, já que nada ficou de fora, como padrão a seguir. São seus próprios enigmas.

Depois de concluídos, não acaba o jogo. Ao contrário. Aí é que começa. Nada parece ter seu lugar, embora tudo se encaixe e tudo tenha seu lugar. Pulsam sem cessar. Dão-me mais do que meu olhar que chega. Um mais que só a arte (e poucas outras coisas) dá.

7

Há ainda uma última propriedade nos desenhos, e no olhar para eles, que vale salientar. São pequenos. Alguns são mesmo quase miniaturas, ou aquilo que o termo “miniaturas” também já simbolizou: iluminuras. Não enchem a sala. Embora não haja nada nas formas de muitos deles que nos impeça de imaginá-los como possíveis grandes pinturas. Impressionariam, é certo, mas perderiam a afinidade com a mão.

Pois são do tamanho das coisas que a mão pega. São mais condizentes com um canto sereno de uma casa ou algo equivalente. Precisam ser olhados de perto. Caso contrário, não pulsarão. Ao aproximar-se deles, é como se o olhar os abrisse com uma grande angular. Ou, ainda, com o foco fechado, ora aqui, ora ali, na superfície de seus movimentos infindáveis. Não enchem a sala, mas inundam o olhar.

 

Alberto Tassinari


Copyright © 2006-2013 by ArtSlant, Inc. All images and content remain the © of their rightful owners.